Objetivo

Com o propósito de ir mais a fundo nas questões psicológicas, que ao meu ver é o que realmente faz a diferença, criei este outro blog: Evolução da Consciência
OBS: Não será postado nada novo neste blog, apenas no novo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Siddhartha Gautama - O Buda

A iluminação de Buda ao enfrentar seu ego
"Buda" é um título dado na Filosofia Budista para àqueles que despertaram plenamente para a verdadeira natureza dos fenômenos daquilo que chamamos de realidade e se puseram a divulgar tal descoberta aos demais seres.

Siddhartha Gautama, foi um príncipe da região do atual Nepal, buscador da verdade, e eventualmente tornou-se um professor espiritual daquilo que ele havia re-descoberto em si mesmo. É popularmente conhecido como O Buda, que significa "aquele que despertou". Seus ensinamentos deram origem ao budismo, mas ao contrário do que muitos pensam, ele não é o fundador do mesmo. Nas palavras do próprio Buda, como é dito através do Sutra do Diamante:
"Nunca pense que eu acredito que devo estabelecer um sistema de ensino para ajudar as pessoas a entenderem o caminho. Nunca divida tal pensamento. O que eu proclamo é a verdade como eu descobri. Um sistema de ensino não tem nenhum significado, porque a verdade não pode ser quebrada em pedaços e ser disposta em um sistema."

Existe muita discussão sobre se o budismo é uma religião ou é uma filosofia. Ao meu ver, é ambos, pois o termo religião vem do latim "religare", que significa "religação", e a religação com a nossa essência é uma das buscas dos budistas. Outro ponto é que em qualquer religião há filosofia, mas a diferença é que no budismo é transmitida a ideia de que não devemos nos apegar a crenças, no sentido de não nos atermos apenas a elas. Além do mais é uma religião não-deísta, ou seja, não tem como base em suas estruturas nem narrar a formação do mundo, nem apresentar seres superiores e buscar favores deles ou sequer entender esse Deus ou deuses, simplesmente por que não temos como conhecer tudo.

O budismo poderia também ser melhor descrito como uma ciência da mente, assim como a psicologia, já que busca compreender nossos processos mentais, e como podemos aprender a lidar com eles e até mesmo transcender o controle que alguns processos tem sobre nós.
Muitos dos que rotulam o budismo como sendo uma religião igual a qualquer outra, são pessoas que se dizem ateus, mas que na realidade são anti-religião, onde ao ligarem-se demais ao materialismo das coisas não conseguem vislumbrar a profundidade daquilo que eles não compreendem de maneira intelectual.

Simbologia das histórias
É importante entender que não se deve interpretar literalmente as histórias de Buda, assim como a de Jesus e Krishna, pois elas são muitas vezes representações metafóricas de processos mentais. Também ocorre que quando se deseja expressar alguma ideia complexa de ser explicada usando as palavras, é preciso usar símbolos que as pessoas possam entender, ou pelo menos ajuda-las a ter uma noção do que se está falando.

Uma curiosidade interessante relacionada ao assunto é o fato do personagem principal da "Trilogia Matrix", Neo(One = Um), ser uma referência evidente ao Buda, devido a história do personagem ter diversas semelhanças, como a busca pela iluminação, a idolatria que o povo de Zion tinha por ele, na esperança de uma libertação, no final do filme Neo percebe que ele é um com a Fonte ao integrar o Agente Smith(que representa o Ego, ou a Sombra de Neo) em si mesmo.
O ator que interpreta o Neo, Keanu Reeves, também interpreta Siddhartha em um filme de 1993, "O Pequeno Buda"(Filme completo no final do artigo). No segundo filme "Matrix: Reloaded", Neo encontra o Arquiteto, o criador da ilusão, algo parecido acontece no filme "O Pequeno Buda", Buda encontra seu "falso eu"(a identificação com a forma, o ego) e chama-o de "arquiteto" também.

A "prisão" do Ego

Ego pode significar muitas coisas: Algumas pessoas usam para se referir ao lado "problemático" da mente, aquele que sucumbe facilmente à ganância, gula, luxúria, ódio, preguiça, inveja e vaidade/orgulho. Sigmund Freud veio com um novo conceito sobre o ego, como sendo a identificação com determinado processo da mente, que seria a objetificação do "Eu". Carl Jung usou para definir a estrutura da mente humana, a qual se encontra dentro de uma estrutura maior.
Quando vemos o ego como algo "problemático" o que sentimos imediatamente é a vontade de separa-lo, exclui-lo, mas isso só ira gerar mais conflito. O ego não é um inimigo, a não ser que você faça ele um. É apenas um processo mental, o qual valorizamos muito mais do que outros, e com isso acabamos por dar boa parte do nosso poder para essa parte de nossa mente nos controlar. O que precisamos fazer é tomar consciência da estrutura mental que construirmos, e podemos fazer isso de maneira eficiente  através da auto-observação, ou qualquer tipo de observação, pois é essa a nossa essência, O ObservadorIsso que é transcender o ego, não é destruí-lo, mas compreender porque ele existe, e usa-lo com sabedoria. E ninguém pode fazer isso por você, você precisa entender isso por si mesmo, o máximo que as pessoas podem lhe fazer é dar exemplos e destacar alguns pontos, mas você que precisa conecta-los.
Nas palavras de Lao Tzu: "A verdade não pode ser dita, se for dita, não é a verdade".

  • DOCUMENTÁRIO: The Buddha (2010)
SINOPSE: Documentário do premiado diretor David Grubin, narrado por Richard Gere, que conta a história da vida do Buda, uma jornada especialmente relevante para os nossos próprios tempos difíceis de mudanças violentas e confusão mental. Ele apresenta o trabalho de alguns dos maiores artistas e escultores do mundo, que nos últimos dois mil anos vem retratando a vida do Buda em obras de arte ricas em beleza e complexidade. Budistas contemporâneos, como o poeta ganhador do prêmio Pulitzer, W.S. Merwin, e sua santidade o Dalai Lama, revelam insights que tiveram a partir da antiga narrativa sobre a vida do príncipe indiano Siddhartha Gautama, que abandou todo o luxo, conforto e ilusão da vida palaciana e partiu numa busca espiritual que o levaria à iluminação.

Documentário [Legendado - Parte 1]

Documentário [Legendado - Parte 2]


  • DOCUMENTÁRIO: A Vida de Buda (BCC)
SINOPSE: Este documentário recria a vida de alguém que nunca quis ser venerado como um Deus, mas que mudou para sempre a história da humanidade em busca de paz e felicidade eterna. Quinhentos anos antes de Cristo um jovem príncipe deixou seu palácio e iniciou uma viagem pelo norte da Índia. Suas experiências definiram uma filosofia de vida que hoje tem mais de 400 milhões de praticantes. A filosofia Budista cresce dia após dia e mais pessoas, cada vez mais jovens, se interessam sobre os ensinamentos de Buda.

No início do século XIX, um grupo de arqueólogos e exploradores ocidentais encontrou em Lumbini, um pequeno povoado do Nepal, o lugar de nascimento de Buda, o que os permitiu descobrir alguns segredos de sua vida. Uma pesquisa profunda, com testemunhos de especialistas e as últimas descobertas arqueológicas.


Documentário Completo [Dublado]

  • FILME: O Pequeno Buda (Little Buddha - 1993)

"Little Buddha" é um filme que aborda a história de Siddhartha Gautama, que é contada para uma criança que acredita-se ser a reencarnação de um grande monge.
 O filme é direcionado para crianças, aborda o tema de maneira bem básica e simplificada, mas é muito interessante para quem não conhece a história e a filosofia Budista.

SINOPSE: Um dia, ao voltar para casa, o arquiteto Dean Conrad (Chris Isaak) encontra dois monges budistas tibetanos, Lama Norbu e Kenpo Tensin, sentados na sua sala de estar, conversando com Lisa, sua esposa. Guiados por vários sonhos perturbadores, os monges viajaram do Nepal até Seattle pois acreditam que um garoto de 10 anos, Jesse, o filho de Dean, possa ser a reencarnação de Lama Dorje, um lendário e místico budista. Inicialmente Dean e Lisa ficam céticos, especialmente quando os monges manifestam interesse em levar Jesse para o Butão, na intenção de comprovar ou não se ele é a reencarnação de Lama Dorje. Porém após o suicídio de Even, um sócio de Dean, este muda de ideai. Após deixar Lisa nos Estados Unidos, Dean viaja com o filho para o Butão.


FILME COMPLETO [LEGENDADO]



  • TV Escola: Episódio - A Vida de Buda
Desenho animado infantil que resume a história da vida de Buda em 14 minutos.


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Manifestação de Porto Alegre (13/06/2013)

"Enquanto centenas de pessoas realizavam o protesto de forma pacífica, um pequeno grupo de cerca de 20 pessoas deixava rastros de vandalismo que geraram vaias de grande parte dos manifestantes. Contêineres de lixo também foram derrubados."
- Zero Hora

Ao voltar da "manifestação contra o aumento da passagem" que estava acontecendo em Porto Alegre(13/06/13), eu estava refletindo sobre o impacto dela, e uma das coisas que me chamou muito a atenção foi o mantra que as pessoas repetiam, "o amor acabou, o brasil vai virar turquia".
O que isso deveria expressar exatamente? Me pergunto se esses pseudo anarquistas, e pessoas que só seguem a onda, acham que o caos ira trazer "justiça" de alguma maneira.
Não percebem a ineficiência do que estão fazendo. Quando pedi para uma guria não derrubar a lixeira, ela respondeu, "você está me oprimindo!". Quando ficamos tão cegos em nossa própria dor e raiva, não conseguimos ver a dor dos outros, e se vemos, não levamos em consideração, pois quem vai limpar a sujeira, juntar os cacos de vidro, pagar a conta dos danos em carros estacionados, não são os políticos e CEOs de empresas, mas será uma pessoa na qual ela deveria estar chamando a atenção e não assustando com sua violência, além do mais, isso só da motivo para mídia falar mal, direcionar o foco para o vandalismo.
Mas talvez mais importante ainda seja a questão que Martin Luther King destacou, "o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons". Pessoas que viam essas situações acontecendo e não falavam nada, alguns até mesmo incitavam a raiva.
Percebi que as pessoas apenas seguem, em sua mente dizem para si mesmos, mesmo que de maneira inconsciente, "me diga para onde ir", isso é extremamente simbólico.
Liberte-se do Sistema através da sua Evolução da Consciência
A falta de organização nem seria um problema se não houvesse destruição.
"Faça o que quiser, é o todo da lei", mas tudo que quiser terá consequências, então escolha com sabedoria o que quer. Somos livres para escolher, mas prisioneiros das consequências.
Destruir tudo que vê pela frente, até mesmo carros e ônibus com pessoas que deveríamos cativar, não é nada mais nada menos que estupidez.
O amor não acabou e não estamos na Turquia! Nosso caso é diferente, pois a "opressão" que muitos falam, é muito diferente da situação dos outros países, o problema do Brasil é a SUBMISSÃO!
Eu entendo que existe muita raiva e frustração contida por décadas de corrupção, manipulação e controle exercido sobre nós, mas então que use essa energia na organização de um novo sistema.
"O segredo da mudança está em não focar sua energia lutando contra o velho, mas em construir o novo" Sócrates.
O amor é importante, a empatia é aquilo que nos une! Divididos somos fracos, somente unidos temos força, mas não força bruta, a força da organização, esse é o verdadeiro poder popular, poder não é agir como animais desesperados.
Agindo assim estaremos a merce da velha estratégia que as elites sempre usaram para nos controlar: Dividir e Conquistar.

Foto da policia correndo atrás dos manifestantes.
Pra finalizar, há um acontecimento que gostaria de dividir. Entendo que em São Paulo e no Rio a policia agiu de maneira estupida,(e criminosa: Policia quebra vidro da própria viatura) mas em Porto Alegre, os policiais só entraram em ação após ALGUNS dos manifestantes começarem a depredar lotações, ônibus e carros(que são DO POVO). Eles observaram parados, enquanto os manifestantes quebravam os vidros de Bancos! Eu fiquei pasmo com isso. Mas infelizmente as pessoas não tem noção do que estão fazendo, apenas fazem sem pensar nas consequências.
Resultado: A manifestação foi dispersada pela pressão da policia, e pra variar, a mídia focou na violência, que foi desnecessária. Estou falando desse caso especifico.
Importante dizer, que cabe a nós, cidadãos, impedir que outra pessoa quebre patrimônio publico ou privado. Precisamos nos impor! Mostrar que nosso movimento não é pra isso, é pra conscientizar!

Particularmente não me importo que quebrem os bancos, pois eles representam o controle financeiro, e esse simbolo sendo destruído representa algo... Mas quebrar veículos, paradas de ônibus e lojas, não representa nada, apenas demonstra ódio e estupidez, justamente os atributos que a elite controladora gostaria que fosse padrão nas pessoas, pois assim somos manipuláveis.

Pra deixar claro, não estou desmerecendo de forma alguma a manifestação, apenas destacando alguns pontos que podem ser melhorados para sermos mais eficientes.

Certa pessoa comentou na pagina dizendo que não é momento de criticar pois o povo está reagindo, mas então, esse é exatamente o momento para estarmos abertos a criticas para evoluirmos. Precisamos ser uma metamorfose ambulante, pois os paradigmas sociais estão mudando.



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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Numero 9 - "Deus está nos números"

 POSTAGEM EDITADA E POSTA NO NOVO BLOG:
O Numero 9
 


Três personagens em três episódios. Cada um em uma espécie diferente de prisão: o primeiro em uma prisão domiciliar; o segundo em um reality show; e o último preso ao vício por games de computador. Em sua estreia como diretor no filme “Número 9” (The Nines, 2007), John August  faz uma reflexão metalinguística sobre o trabalho do diretor/roteirista no cinema usando uma poderosa metáfora gnóstica(Gnosticismo) do protagonista como o próprio ser humano prisioneiro na Terra, cujo planeta é visto como uma realidade mal produzida e roteirizada por um “deus ex machina”: toda vez que o protagonista começa a compreender o simbolismo místico da recorrência do número nove na sua vida, o mundo é desmanchado para recomeçar em um próximo episódio, do zero, levando o personagem principal ao esquecimento da sua verdadeira identidade.


Chris Carter, criador da série “Arquivo X”, em um comentário sobre o episódio chamado “Improbable” da nona temporada fez a seguinte detalhamento do argumento da estória: “tudo é sobre a compreensão da natureza de Deus através do uso da numerologia, sincronicidade, probabilidade, reconhecimento de padrões, física teórica ou algo parecido”.

Nesse episódio de Arquivo X a personagem Agente Scully trava um interessante diálogo com a Agente Reys:

Scully: "Veja, Agente Reys, você não pode reduzir tudo na vida, toda criação, toda obra de arte, arquitetura, música, literatura... num jogo de vencedores e perdedores."
Reys: "Por que não? Talvez os vencedores sejam aqueles que jogaram melhor o jogo. Eles conseguiram ver padrões e conexões, assim como nós estamos tentando fazer nesse momento.”

Pois o filme “Número 9” dirigido e escrito por John August (em seu primeiro filme como diretor depois de fazer o roteiro de diversos filmes de Tim Burton) lida diretamente com esse tema ao propor que a compreensão do simbolismo místico das coincidências e sincronicidades permitiria um ser divino escapar da sua prisão corporal. A compreensão dos significados das sincronicidades como ferramenta para a libertação.

Assim como qualquer obra de arte, é um grande erro tentar tomar qualquer coisa como literal ou absoluta, tudo que vemos e sentimos tem vários lados, é preciso sempre se manter aberto para novas possibilidades.

Trailer Legendado


Áudio: Inglês
Legenda: Portugês(BR)
Formato: DvDrip


AVISO DE SPOILER

O filme se desenrola em três episódios a princípio bem distintos (inclusive com lettering indicando as divisões dos segmentos), com os mesmos atores em diferentes “encarnações”. Aos poucos vamos descobrindo que as narrativas se sobrepõem e se interligam na medida em que o filme avança:


"The Prisoner": conta a história de um ator de televisão (Ryan
Reynolds), que se encontra sob uma espécie de prisão domiciliar com sua assessora (Melissa McCarthy) e uma vizinha frustrada com seu casamento (Hope Davis), fornecendo suas únicas ligações com o mundo exterior. Eventos misteriosos levam-no a questionar se uma ou ambas as mulheres estão enganando a ele sobre a natureza de seu encarceramento.


"Reality Show": é um episódio de meia hora de um “reality TV” chamado "Behind the Screen," que acompanha o processo de criação de um drama de televisão. Depois de ter filmado o piloto, criador/produtor Gavin Taylor(Ryan Reynolds) enfrenta pós-produção com a ajuda de seu melhor amigo (e atriz) Melissa McCarthy e desenvolvimento VP Susan Howard (Hope Davis).

"Knowing": um famoso designer de videogames(também Ryan Reynolds) e sua esposa (Melissa McCarthy) enfrentam problemas com o carro e um lugar remoto. Sua filha (Elle Fanning) descobre informações que o levam a uma escolha difícil e irrevogável.

O filme desafia o espectador a encontrar recorrências ou padrões nesses três episódios e resolver o enigma de uma narrativa propositalmente descontínua e truncada. Para começar os atores, que assumem diversas encarnações nos episódios. Mas as principais recorrências são a condição de prisioneiro dos protagonistas (reforçadas pela condição do prazer proporcionado por um vício) em cada episódio e a onipresença do número nove que aparece em dezenas de situações.

O consumo de crack após um colapso emocional faz a estrela de TV ficar confinada em uma casa; o prazer do roteirista em manipular ficção e realidade o faz permanecer num Reality TV da sua própria vida; e o vício por games que prende o protagonista a uma existência terrena. E a recorrência do número nove, que os personagens interpretados por Ryan Reynolds tentam compreender o porquê da onipresença numérica. Por exemplo, em momentos que fazem lembrar o filme “Amnésia” (Memento, 2000) de Christopher Nolan, o protagonista deixa um post it com um recado para o protagonista de outro episódio: “preste atenção nos noves”.

O filme “Número Nove” já pode ser considerado um clássico do “AstroGnosticismo” tal qual o filme “Earthling” analisado em postagem anterior (veja links abaixo): a visão do ser humano como uma criatura celeste prisioneira em um planeta. Sem conseguir adaptar-se, ele sofre e sente a nostalgia de algo que deixou ou perdeu. No caso de “Número 9”, a maneira de encontrar esse “conhecimento” (explicitado no episódio final) é compreender o simbolismo das sincronicidades, recorrências e padrões que estariam debaixo de nossos narizes. Cegos ou adormecidos, não conseguiríamos perceber.



Deus Ex Machina e Reencarnações

A onipresença do simbolismo
do número nove
Em entrevistas, o diretor Jonhn August afirmou que todo o argumento do filme seria metalinguístico: a responsabilidade do criador (diretor ou roteirista) diante da sua própria criação. “A pergunta ‘qual o direito que você tem de cair fora de tudo o que você escreveu? é a minha própria experiência como escritor quando em muitos momentos tenho que simplesmente pular fora de algum ponto do qual iniciou a narrativa” (“The Nines: John August Interview”, LoveFilm.com). August refere-se ao que os roteiristas chamam de deus ex machina: termo para designar soluções arbitrárias, sem nexo ou plausibilidade na narrativa, para solucionar becos sem saída encontrados em roteiros mal conduzidos.

Mas para fazer essa metalinguagem do próprio ofício do diretor/roteirista, August utilizou uma poderosa e dramática metáfora AstroGnóstica como se a nossa própria existência fosse um roteiro mal feito de um cosmos mal produzido. Os protagonistas dos três episódios (Gary, Gavin e Gabriel) são prisioneiros em mundos onde personagens femininos (Sophia?) tentam atrair a confiança para revelar a sua verdadeira identidade e sua verdadeira origem da qual nada se lembra. “Você não é quem imagina ser”, falam recorrentemente para os personagens prisioneiros interpretados por Ryan Reynolds.

Quando Gary e Gavin (menos Gabriel, que alcançará a gnose final que quebrará o ciclo vicioso) são confrontados com a Verdade simbolizada pela recorrência do número 9, entra em ação o deus ex machina - a intervenção do demiurgo roteirista/diretor: o mundo é desmanchado para ser reconstruído em um próximo episódio, iniciando-se do zero ou do esquecimento do protagonista sobre a revelação anterior.

Tudo isso lembra a visão gnóstica das sucessivas reencarnações na Terra: ao contrário da visão evolucionista ou aditiva espírita (a necessidade das reencarnações como forma de aprendizado), aqui temos uma concepção subtrativa: somos condenados a esquecer e recomeçar do zero, perpetuando a prisão do espírito na carne através da amnésia. Prazeres como o vício das drogas ou a ambição pelo poder (como no segundo episódio focado na busca do sucesso em uma emissora de TV) são estratégias do Demiurgo para nos entreter no próprio esquecimento.

O “Hino da Pérola”

Como o leitor poderá observar quando assistir ao filme, os três episódios se integram como o percurso da jornada espiritual de um peregrino exilado e que tenta atender ao chamado de volta para a sua terra natal, chamado simbolizado pelos padrões e a simbologia dos números.

Gary, Gavin e Gabriel são muito parecidos com os protagonistas Neo de “Matrix” e John Murdock de “Cidade das Sombras” (Dark City, 1998), mas existe uma diferença básica: ao contrário de Neo e Murdock, eles não querem reorganizar ou salvar o mundo. Na verdade eles querem simplesmente fugir do inferno.

Por isso há uma incrível semelhança entre o filme “Número 9” e o poema gnóstico cristão “O Hino da Pérola” escrito supostamente por Bardesanes no século II sobre o relato da peregrinação da alma que termina com a sua salvação simbolizada pela aquisição da “pérola” (a Gnose/Sabedoria) e o posterior retorno à Casa do Pai. Um poema que guarda semelhança com a Parábola do Filho Pródigo de Jesus. Vejamos esse trecho do poema:

“Eu esqueci que era filho dos reis, e eu servi seu rei;
Esqueci a pérola, pela qual meus pais me enviaram,
E por causa do peso de suas opressões eu estava em sono profundo.
Mas todas essas coisas que me aconteceram
Meus pais perceberam, e ficaram tristes por mim.” (clique aqui e leia todo o poema)
Ao utilizar uma simbologia gnóstica para discutir metalinguisticamente a condição do diretor e roteirista e a sua responsabilidade diante dos personagens e da própria narrativa, John August confirma uma hipótese de muitos pesquisadores sobre o filme gnóstico como Erik Wilson, Christopher Knowles e eu mesmo: se o cinema é a própria atualização do mito da Caverna de Platão, então certamente esse meio é a expressão artística mais adequada para que os espectadores entrem em contato com realidades mais profundas – a busca da centelha de redenção e gnose através de simbolismos dentro de um meio que nos faz imergir por duas horas em uma outra dimensão.

Ficha Técnica

  • Título: Número 9 (The Nines)
  • Diretor: John August
  • Roteiro: John August
  • Elenco: Ryan Reynolds, Melissa McCarthy, Hope Davis, Elle Fanning
  • Produção: Destination Films, Jinks/Cohen Company
  • Distribuição: Sony Pictures Home Entertainment (DVD)
  • Ano: 2007
  • País: EUA


Analise adaptada de:
Cine Gnose - Cinema Secreto



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